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A Noite Estrelada: o céu que Van Gogh viu da janela

Pintada em 1889, durante a internação do artista em Saint-Rémy, a tela de céu em redemoinhos virou símbolo de beleza e inquietação. Conheça sua história.

Por Equipe Samuel Artes4 min de leitura

A Noite Estrelada, de Van Gogh: céu noturno em redemoinhos azuis e amarelos sobre uma aldeia, com um cipreste escuro à esquerda
Domínio público, via Wikimedia Commons

Um céu que gira, estrelas que pulsam como pequenos sóis, um cipreste que sobe feito chama escura e, lá embaixo, uma aldeia adormecida. A Noite Estrelada é uma daquelas pinturas que reconhecemos antes mesmo de saber o nome do autor. Mas por trás da imagem que hoje estampa de guarda-chuvas a capas de caderno existe um momento delicado da vida de Vincent van Gogh — e uma das demonstrações mais intensas de como a pintura pode transformar o que se vê em algo que se sente.

Uma janela em Saint-Rémy

Em maio de 1889, depois de uma série de crises em Arles, no sul da França, Van Gogh decidiu se internar voluntariamente no asilo de Saint-Paul-de-Mausole, um antigo mosteiro nos arredores de Saint-Rémy-de-Provence. Ali ele tinha um quarto com vista para um campo de trigo cercado por um muro, com os montes Alpilles ao fundo, e recebeu permissão para usar outro cômodo como ateliê.

Em uma carta ao irmão Theo, escrita no início de junho, Vincent contou ter passado um longo tempo olhando o campo pela janela antes do nascer do sol, quando só se via a estrela da manhã, muito grande. Essa estrela — que os astrônomos identificam como o planeta Vênus, visível de madrugada naquele período — aparece na tela como um ponto de luz intenso, logo à direita do cipreste.

A paisagem, porém, não é um retrato fiel da vista. A aldeia foi em grande parte imaginada, e muitos estudiosos notam que a torre pontiaguda da igreja lembra mais as igrejas da Holanda natal do pintor do que as da Provença. Boa parte dos especialistas acredita que a tela foi pintada durante o dia, a partir de esboços e da memória, combinando observação e invenção.

Pinceladas que se movem

O que torna A Noite Estrelada inesquecível é o movimento. Van Gogh aplicava a tinta em camadas espessas, o chamado empaste, com pinceladas curtas e direcionais que deixam o relevo visível na superfície. No céu, essas marcas se organizam em espirais e ondas, como se o vento tivesse forma. As estrelas ganham halos concêntricos; a lua crescente brilha envolta em um disco amarelo.

As cores trabalham em contraste. Azuis profundos e ultramarinos dominam a composição, enquanto os amarelos das estrelas e da lua vibram justamente por estarem cercados por seu oposto. Era uma lição que Van Gogh aprendera em Paris, em contato com os impressionistas e com a teoria das cores complementares, mas que ele levou a um território muito pessoal.

O cipreste, à esquerda, liga a terra ao céu. Na tradição mediterrânea, a árvore é associada aos cemitérios, e por isso muitos leem nela uma alusão à morte. Van Gogh, no entanto, escrevia sobre os ciprestes com admiração, comparando suas linhas e proporções às de um obelisco egípcio. Talvez a árvore seja as duas coisas ao mesmo tempo: sombra e impulso para o alto.

Van Gogh não pintou a noite como ela era. Pintou a noite como ele a sentia — e, de algum modo, como nós também a sentimos.

Um “fracasso” que virou ícone

Curiosamente, o próprio artista não parecia muito satisfeito com o resultado. Em carta a um amigo pintor, chegou a mencionar a tentativa de alcançar “estrelas grandes demais” como mais um fracasso. Na época, sua obra quase não tinha compradores — costuma-se dizer que ele vendeu pouquíssimos quadros em vida.

Van Gogh morreu em julho de 1890, pouco mais de um ano depois de pintar a tela. Foi o empenho de Johanna van Gogh-Bonger, viúva de Theo, que ajudou a divulgar sua obra nas décadas seguintes. A Noite Estrelada passou por coleções particulares até ser adquirida pelo Museum of Modern Art de Nova York, em 1941, onde se tornou uma das peças mais queridas do acervo.

Curiosidades

  • A tela é relativamente pequena: pouco mais de 92 centímetros de largura.
  • Alguns físicos chegaram a comparar os redemoinhos do céu a padrões matemáticos da turbulência em fluidos — uma coincidência que fascina cientistas até hoje.
  • A pintura inspirou músicas, filmes, poemas e incontáveis releituras, a mais conhecida delas uma canção pop dos anos 1970 que leva o nome do pintor.
  • Van Gogh pintou outros céus noturnos, como Noite Estrelada sobre o Ródano, feita em Arles no ano anterior e hoje no Musée d'Orsay, em Paris.

Onde ver hoje

A Noite Estrelada está no MoMA, em Nova York, nas galerias da coleção permanente dedicadas à arte do fim do século XIX e início do século XX. É uma das obras mais procuradas do museu, então vale chegar cedo. Olhe primeiro de longe, para sentir o movimento do conjunto, e depois aproxime-se o quanto for permitido: é de perto que se percebem o volume da tinta e a energia de cada pincelada.

O que uma tela pode fazer por uma parede

Diante de A Noite Estrelada entendemos que uma pintura não precisa ser enorme nem perfeita para mudar um ambiente. Basta que ela carregue a presença de quem a fez: o gesto, a matéria, a cor aplicada com intenção. É essa presença que distingue uma obra original de qualquer reprodução — e que faz de um quadro pendurado na sala um pequeno céu particular, pronto para ser redescoberto a cada noite.

  • Vincent van Gogh
  • Pós-impressionismo
  • MoMA
  • Paisagem
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