Pular para o conteúdo

O Grito: a angústia que Munch transformou em imagem

A figura de mãos no rosto sob um céu vermelho virou o retrato universal da ansiedade. Conheça a versão pintada de 1893, as outras versões e os roubos.

Por Equipe Samuel Artes4 min de leitura

O Grito, de Edvard Munch: figura com as mãos no rosto sobre uma ponte, sob um céu de faixas vermelhas e alaranjadas
Domínio público, via Wikimedia Commons

Uma figura frágil, quase sem traços, leva as mãos ao rosto sobre uma ponte. Atrás dela, o céu arde em faixas vermelhas e alaranjadas; abaixo, um fiorde escuro se curva como se a paisagem inteira estivesse vibrando. O Grito, do norueguês Edvard Munch, talvez seja a imagem mais reconhecível da angústia humana. E, como acontece com toda imagem que vira símbolo, sua história é mais rica do que o ícone sugere.

Um passeio ao pôr do sol

Munch deixou registrado, em anotações do início da década de 1890, a experiência que deu origem à obra. Ele caminhava com dois amigos por uma estrada ao entardecer quando o céu ficou vermelho como sangue. Sentindo-se exausto, parou e se apoiou na cerca, enquanto os amigos seguiam adiante. Naquele instante, escreveu, sentiu um grito infinito atravessando a natureza.

O cenário é identificável: a estrada que sobe a colina de Ekeberg, de onde se avista o fiorde e a cidade de Kristiania, como Oslo se chamava na época. O título original que Munch deu à composição em alemão pode ser traduzido como “O grito da natureza”. Um detalhe muda tudo: a figura não está necessariamente gritando. Ela parece tapar os ouvidos, tentando se proteger de um som que vem de fora — e de dentro.

Uma vida marcada pela perda

Para entender a carga emocional da pintura, ajuda conhecer a biografia do artista. Munch perdeu a mãe para a tuberculose quando tinha cinco anos e, alguns anos depois, a irmã mais velha, Sophie, para a mesma doença. Outra irmã passou grande parte da vida internada por problemas de saúde mental. Ele próprio dizia que a doença, a loucura e a morte tinham sido os anjos sombrios ao redor de seu berço.

O Grito faz parte de um projeto maior que Munch chamou de Friso da Vida: uma série de pinturas sobre amor, ansiedade, ciúme e morte, pensadas para serem vistas em conjunto. Em vez de descrever o mundo exterior, ele queria pintar estados da alma. Por isso é considerado um dos precursores do Expressionismo, movimento que ganharia força no início do século XX.

Técnica: a força do inacabado

A versão de 1893 foi feita com têmpera e giz pastel sobre cartão, um suporte simples e barato. Em vários pontos o cartão aparece sob a tinta, e as pinceladas são rápidas, sinuosas, sem acabamento polido. Nada ali busca a perfeição acadêmica. As linhas do céu, do fiorde e da colina ecoam umas nas outras, e só a ponte, com sua diagonal rígida, parece resistir ao redemoinho. A figura central, reduzida a uma forma ondulante e um rosto quase de caveira, ecoa as mesmas curvas: é como se o corpo tivesse sido contaminado pela paisagem.

Munch não pintou o que viu naquela tarde. Pintou o que sentiu — e por isso tanta gente se reconhece na imagem.

Muitas versões de um mesmo grito

Não existe um único O Grito. Munch voltou ao tema várias vezes. Além da versão pintada de 1893, hoje no Museu Nacional de Oslo, há uma versão em giz de cera do mesmo ano, uma em pastel de 1895, uma litografia também de 1895, que ajudou a espalhar a imagem pelo mundo, e uma versão em têmpera geralmente datada de 1910, guardada no Museu Munch. O pastel de 1895, a única versão em mãos particulares, foi leiloado em Nova York em 2012 por um valor que passou dos cem milhões de dólares.

Curiosidades

  • No canto superior esquerdo da versão de 1893 há uma pequena inscrição a lápis que diz, em norueguês, algo como “só pode ter sido pintado por um louco”. Por muito tempo se discutiu quem a teria escrito; em 2021, especialistas do Museu Nacional concluíram, pela análise da caligrafia, que a frase é do próprio Munch.
  • A versão de 1893 foi roubada em fevereiro de 1994, no dia da abertura dos Jogos Olímpicos de Inverno de Lillehammer, e recuperada poucos meses depois. Conta-se que os ladrões deixaram um bilhete irônico agradecendo pela segurança fraca.
  • Em 2004, foi a vez da versão do Museu Munch ser levada, junto com a Madona; as duas obras foram recuperadas em 2006.
  • Muitas hipóteses tentam explicar o céu vermelho, das cinzas de uma grande erupção vulcânica na década de 1880 a raras nuvens de altitude que aparecem nos céus nórdicos. Nenhuma é unanimidade — e talvez Munch simplesmente tenha intensificado o pôr do sol para expressar uma emoção.

Onde ver hoje

A versão pintada de 1893 está no Museu Nacional de Arte, Arquitetura e Design da Noruega, o Nasjonalmuseet, inaugurado em sua nova sede, à beira do porto de Oslo, em 2022. A obra fica em uma sala dedicada a Munch, ao lado de outras pinturas importantes do artista. Quem tiver tempo deve visitar também o Museu Munch, que guarda milhares de obras deixadas pelo pintor à cidade e costuma expor, em sistema de rodízio, as suas próprias versões do tema.

Arte que nos traduz

O Grito nos lembra de uma das funções mais antigas da arte: dar forma ao que não conseguimos dizer. Uma pintura original carrega essa capacidade de um jeito que nenhuma imagem impressa alcança. As marcas do pincel, as cores escolhidas, até as imperfeições contam algo sobre um momento vivido por alguém. Ter uma obra assim em casa é conviver com uma emoção que ganhou corpo — e que, dia após dia, conversa com as nossas.

  • Edvard Munch
  • Expressionismo
  • Noruega
  • Século XIX
Compartilhar

Continue lendo

Outras histórias da arte

Ver todos os artigos
Mona Lisa, de Leonardo da Vinci: retrato de mulher de mãos cruzadas diante de uma paisagem com rios e montanhas

Grandes obras

Mona Lisa: o sorriso que atravessou cinco séculos

Como um retrato encomendado por um comerciante florentino virou a pintura mais famosa do mundo — do sfumato de Leonardo ao roubo que a transformou em lenda.

5 min de leitura

A Noite Estrelada, de Van Gogh: céu noturno em redemoinhos azuis e amarelos sobre uma aldeia, com um cipreste escuro à esquerda

Grandes obras

A Noite Estrelada: o céu que Van Gogh viu da janela

Pintada em 1889, durante a internação do artista em Saint-Rémy, a tela de céu em redemoinhos virou símbolo de beleza e inquietação. Conheça sua história.

4 min de leitura

Do ateliê para a sua parede

Conheça as obras do ateliê

As grandes obras moram nos museus. As próximas podem morar com você: pinturas originais, feitas à mão, assinadas e acompanhadas de certificado de autenticidade.

Ver o acervo