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A Ronda Noturna: o quadro de Rembrandt que nunca foi noturno

Uma milícia em movimento, uma menina iluminada e um nome que nasceu de um engano: os segredos da maior obra de Rembrandt, no Rijksmuseum.

Por Equipe Samuel Artes4 min de leitura

A Ronda Noturna, de Rembrandt: milícia armada em movimento, com o capitão de preto e o tenente de amarelo à frente
Domínio público, via Wikimedia Commons

Um capitão vestido de preto dá um passo à frente e estende a mão, dando uma ordem. Ao lado dele, um tenente de amarelo claro ouve com atenção. Atrás, homens carregam mosquetes, lanças e uma bandeira; um tambor rufa, um cão late, uma menina surge iluminada no meio do grupo. A Ronda Noturna, pintada por Rembrandt em 1642, é uma das obras mais ambiciosas do século XVII. E começa com uma surpresa: a cena não se passa à noite.

Um retrato de grupo diferente de todos

No século XVII, as cidades holandesas tinham milícias civis, companhias de cidadãos responsáveis pela defesa urbana. Com o tempo, essas organizações ganharam também uma função social e de prestígio, e era comum que seus membros encomendassem grandes retratos coletivos para decorar suas sedes. Cada um pagava sua parte e queria aparecer bem.

A tradição desses retratos era bastante estática: fileiras de homens alinhados, todos visíveis, todos com o mesmo destaque. Rembrandt fez o contrário. Ao receber a encomenda da companhia de arcabuzeiros comandada pelo capitão Frans Banninck Cocq, transformou o retrato em uma cena de ação, como se a milícia estivesse saindo em marcha naquele exato momento. Alguns rostos ficaram na sombra, outros parcialmente encobertos — uma ousadia em uma obra paga por todos.

O título oficial no museu é longo e descritivo: algo como “Companhia militar do Distrito II sob o comando do capitão Frans Banninck Cocq”. O capitão está no centro, de preto com faixa vermelha, e o tenente Willem van Ruytenburch, de amarelo, ao seu lado.

A menina e as garras de galinha

A figura mais intrigante da pintura é uma menina de vestido dourado, banhada por uma luz quase sobrenatural, à esquerda do centro. Na cintura, ela carrega uma galinha morta pendurada pelas patas. Longe de ser um detalhe aleatório, a ave funciona como um emblema: as garras eram um símbolo dos arcabuzeiros, a companhia retratada. A menina é, portanto, uma espécie de mascote ou alegoria do grupo, e não uma pessoa real presente na cena.

O engano que deu nome ao quadro

Ao longo dos séculos, o verniz aplicado sobre a pintura escureceu, e a sujeira se acumulou. A cena, que se passa de dia, foi ficando cada vez mais sombria, até que, no fim do século XVIII, passou a ser chamada de “ronda noturna”. O nome pegou, e mesmo depois de limpezas que revelaram a luz original, continuou sendo usado no mundo todo.

O jogo entre luz e sombra, o famoso claro-escuro, é uma das marcas de Rembrandt. Aqui ele organiza a composição como um palco: os protagonistas recebem a luz mais intensa, enquanto o restante da tropa emerge aos poucos da penumbra. O resultado é dinamismo puro — quase se ouve o tambor.

Rembrandt recebeu a encomenda de um retrato de grupo e devolveu uma cena de teatro. Ninguém tinha feito nada parecido.

Um quadro cortado, atacado e escondido

A obra que vemos hoje é menor do que a original. Em 1715, quando foi transferida para a prefeitura de Amsterdã, a tela foi recortada para caber entre duas portas. Faixas foram removidas de todos os lados, principalmente da esquerda, onde desapareceram duas figuras. Sabemos como era a composição completa graças a uma cópia menor feita na época por Gerrit Lundens. Em 2021, o Rijksmuseum usou essa cópia e ferramentas de inteligência artificial para reconstruir temporariamente as partes perdidas.

Durante a Segunda Guerra Mundial, a pintura foi retirada da moldura, enrolada e escondida para escapar dos bombardeios e da ocupação. Nas décadas seguintes, sofreu ataques de visitantes: em 1975, foi cortada com uma faca, e em 1990 foi atingida por ácido. Em ambos os casos, os restauradores conseguiram recuperá-la.

Desde 2019, o museu conduz a Operação Ronda Noturna, um grande projeto de pesquisa e restauração feito diante do público, com a obra protegida por uma estrutura de vidro. Quem visita pode acompanhar os especialistas trabalhando.

Curiosidades

  • 1642, o ano em que Rembrandt terminou a obra, foi também o ano da morte de sua esposa, Saskia.
  • Por muito tempo se contou que a pintura teria arruinado a carreira de Rembrandt por desagradar aos retratados. Historiadores hoje consideram essa história um mito: os problemas financeiros do pintor tiveram outras causas.
  • Entre os rostos ao fundo, muitos estudiosos reconhecem um homem de boina espiando por trás dos milicianos, que poderia ser um autorretrato do artista.

Onde ver hoje

A Ronda Noturna é a peça central do Rijksmuseum, em Amsterdã. Ela ocupa uma sala própria, no fim da Galeria de Honra, onde estão também obras de Vermeer, Frans Hals e outros mestres holandeses. É impressionante pelo tamanho — quase quatro metros de altura — e merece ser vista de longe e de perto. Confira no site do museu se a restauração está em andamento: assistir ao trabalho dos especialistas é uma experiência à parte.

Arte que ganha vida no ambiente

Rembrandt pensou A Ronda Noturna para um salão específico, com luz e distância de observação próprias. Ele sabia que uma pintura muda conforme o lugar onde está. Isso vale para qualquer obra original: uma tela pendurada na sala ganha vida com a luz da janela, com a altura em que é instalada, com a rotina da casa. É um diálogo que começa no ateliê e continua, todos os dias, na parede de quem a escolheu.

  • Rembrandt
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  • Rijksmuseum
  • Retrato coletivo
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