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O Beijo: o ouro de Klimt e o abraço mais famoso da arte

Ouro, mosaico e ternura: como Gustav Klimt criou em Viena a imagem de amor mais reproduzida do século XX — e por que ela continua tão atual.

Por Equipe Samuel Artes4 min de leitura

O Beijo, de Gustav Klimt: casal abraçado envolto em mantos dourados, à beira de um prado florido
Domínio público, via Wikimedia Commons

Um casal se abraça à beira de um prado florido. Ele se curva, envolve o rosto dela com as mãos e beija sua face; ela, ajoelhada, de olhos fechados, se entrega ao gesto. Ao redor dos dois, um manto de ouro os funde numa única forma luminosa. O Beijo, de Gustav Klimt, pintado em Viena entre 1907 e 1908, é provavelmente a imagem de amor mais conhecida da arte moderna — está em pôsteres, xícaras, ímãs de geladeira e convites de casamento no mundo inteiro. Diante do original, no entanto, a experiência é outra.

Viena na virada do século

Na passagem do século XIX para o XX, Viena era uma capital efervescente. Ali conviviam Sigmund Freud, o compositor Gustav Mahler, arquitetos que reinventavam a cidade e artistas que questionavam o academicismo. Em 1897, um grupo deles rompeu com a associação oficial de artistas e fundou a Secessão Vienense, com Klimt como seu primeiro presidente. O lema gravado na fachada do pavilhão da Secessão defendia que cada época tivesse a sua arte, e cada arte, a sua liberdade.

Klimt já era um pintor de sucesso, com encomendas para teatros e edifícios públicos, mas suas obras mais ousadas provocavam escândalo. Painéis que ele criou para a Universidade de Viena foram duramente criticados por sua sensualidade e pessimismo. O Beijo surgiu nesse contexto, num momento em que o artista buscava um caminho próprio, entre o decorativo e o simbólico.

A fase dourada

O ouro de Klimt tem raízes familiares e geográficas. Seu pai era gravador de ouro, e o jovem Gustav cresceu cercado pelo ofício. Em 1903, o pintor viajou a Ravena, na Itália, e ficou profundamente impressionado com os mosaicos bizantinos das igrejas da cidade, onde figuras sagradas brilham sobre fundos dourados. A partir daí, iniciou o período que ficaria conhecido como sua “fase dourada”, da qual O Beijo é o ponto alto.

Na tela, Klimt combinou tinta a óleo com folhas de ouro aplicadas diretamente sobre a superfície. O resultado muda conforme a luz e a posição de quem olha: a pintura cintila, escurece, volta a brilhar. Os rostos e as mãos, pintados com delicadeza naturalista, contrastam com as roupas, que são pura ornamentação plana, quase como tecidos ou joias.

Os símbolos do abraço

Os padrões das roupas não são aleatórios. No manto masculino predominam retângulos pretos, brancos e prateados, formas rígidas e verticais. No vestido feminino aparecem círculos, espirais e flores coloridas, formas orgânicas e curvas. As duas linguagens se encontram no abraço, sem se misturar por completo — uma imagem poderosa de união entre diferenças.

Há também algo de inquietante na composição. O casal está à beira de um precipício: o prado florido termina de repente, e os pés da mulher, com os dedos tensos, parecem agarrar a borda. O fundo não é um céu, mas uma superfície escura salpicada de pontos dourados, como poeira de estrelas. Amor e vertigem, êxtase e fragilidade convivem na mesma imagem.

Em O Beijo, o ouro não é luxo: é luz. É a maneira que Klimt encontrou de pintar o que acontece quando duas pessoas se encontram.

Quem são os amantes? Há quem veja nos rostos o próprio Klimt e Emilie Flöge, estilista e sua companheira de longa data, mas não há qualquer confirmação. O mais provável é que o pintor quisesse justamente uma imagem universal, que qualquer pessoa pudesse reconhecer como sua.

Curiosidades

  • A pintura é perfeitamente quadrada, com 180 centímetros de lado — um formato que Klimt adorava e usou em muitas de suas paisagens.
  • Foi comprada pelo governo austríaco em 1908, quando foi exibida pela primeira vez numa grande mostra de arte em Viena, e desde então pertence ao acervo público.
  • Klimt morreu em 1918, aos 55 anos, e sua obra entrou em domínio público há décadas, o que explica em parte a enorme quantidade de reproduções.

Onde ver hoje

O Beijo está no Belvedere Superior, um palácio barroco do século XVIII que abriga a Galeria Austríaca, em Viena. A obra fica numa sala dedicada a Klimt, ao lado de outras pinturas importantes do artista, como Judite I. Por ser a estrela do museu, costuma reunir pequenas multidões; visitar no início da manhã ou no fim da tarde ajuda. Para completar o roteiro, vale ir ao pavilhão da Secessão, no centro da cidade, onde está o Friso de Beethoven, outro trabalho monumental de Klimt.

O que a reprodução não mostra

Poucas obras foram tão copiadas quanto O Beijo — e poucas mostram tão bem o que se perde numa cópia. A cintilação do ouro, a textura da tinta, o modo como a superfície reage à luz do ambiente: tudo isso só existe no original. É a mesma diferença que sentimos ao conviver com uma pintura feita à mão. Ela não é apenas uma imagem na parede, mas um objeto vivo, que muda com o sol da manhã e com a luz amarela da noite, e que guarda o gesto de quem a criou.

  • Gustav Klimt
  • Art Nouveau
  • Viena
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